O caminho tortuoso

quinta-feira, 6 maio 2010

Amor, sexo, morte, obsessão, redenção.

Gênio ou louco? Tarado ou santo? Reacionário ou revolucionário?

Há quem, com estas poucas palavras, ouse resumir o universo literário de Nelson Rodrigues – quem sabe até para meros fins didáticos.

No entanto (e felizmente), há também quem, diante dessas palavras, ouse afirmar que o universo infinitamente rico e denso de Nelson ultrapasse os arrogantes limites da nomenclatura, da rotulação e, por fim, do preconceito. E ainda vai mais além: organiza um projeto de divulgação e releitura de sua obra num meio puramente acadêmico – que é o Campus Macaé do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense – o que acaba, infelizmente, soando como uma ideia zombeteira e provocativa e o pior: repleta de objetivos simploriamente didáticos.

Porém, o mais complicado de tudo é: como convencer estudantes de cursos técnicos relacionados à área industrial, exata e lógica de que dois mais dois não precisa necessariamente ser quatro – mas também pode ser três, cinco ou seis. (E não me refiro ao sistema lógico de numeração binário.)

No final das contas, mostra-se necessária a confissão: é um caminho realmente difícil, contraditório e extremamente tortuoso. Mas quem foi que disse que este jamais seria o melhor caminho a se tomar? O que as pessoas, na verdade, nunca pararam para pensar é que a curva é sempre muito, mas muito mais interessante do que a reta. O torto que é bem feito consegue ser muito mais sedutor do que a reta mal traçada. Veja o exemplo de Oscar Niemeyer e lembre-se: ninguém é gênio à toa. 

A grande maioria das obras artísticas projetadas pelo nosso grande arquiteto apresenta curvas em excesso e, quase nunca, as retas clichês. E, ao que tudo indica, o caminho tortuoso que Niemeyer buscou seguir (e nele construiu brilhantemente toda a sua carreira) foi o mesmo adotado por Nelson Rodrigues.

Para atingir a consciência, o coração e a alma dos seus leitores e dos espectadores do seu teatro, Nelson usou o caminho que lhe custaria mais caro, mas que também o consagraria para sempre no rol dos maiores e mais complexos escritores nacionais; dos mais sábios e sagazes profissionais do setor jornalístico; dos autores que mais produziram durante sua vida artística; dos grandes criadores de frases-de-efeito da Língua Portuguesa; dos dramaturgos mais revolucionários do teatro brasileiro – lista esta que ele, com louvor, encabeça.

Nelson adotou o caminho da retratação da “face hedionda do ser humano” – aquela que, se o ser humano realmente a possui (ao lado de uma outra linda), deve ser mostrada nos palcos, para a sua própria salvação. Afinal de contas, sabemos que, ao colocarmos um ser vivo qualquer nas suas piores condições de sobrevivência, será exatamente nesse momento que esse ser vivo se mostrará, da forma como ele verdadeiramente é – e quem sabe assim se redimirá dos seus próprios pecados.

É quando colocamos um ser humano em permanente estado de tensão sexual, ou varrido por um desejo ensandecido de acabar com a própria vida, ou atormentado pela sua pior obsessão, que ele alcançará a sua mais pura essência; se libertará, enfim, das cascas morais que a sociedade o impõe e atingirá a própria pureza – aquela que lhe foi roubada a partir do momento em que começou a amadurecer e conhecer o mundo à sua volta.

Porém, essa discussão não se encerra aqui. Ou melhor: ela ainda nem começou.

Dia 12/05/10, às nove horas da manhã – 1º Encontro Literário com Nelson Rodrigues,

Onde sua obra será relida, debatida e reinterpretada, com exibição extra de vídeos e músicas relacionados ao universo rodrigueano e aos temas de cada debate. No primeiro Encontro, o tema será:

“O único lugar onde pecado tem castigo é no meu teatro”: Introdução à obra rodrigueana e suas contradições

O aluno do Campus Macaé do Instituto Federal Fluminense interessado em participar dos Encontros deverá procurar pelo aluno Paulo Cesar, da turma 3001-B. O limite de vagas é de 30 e os Encontros terão periodicidade quinzenal.

Entretanto, é necessário frisar que o grande objetivo dos Encontros não é o da concordância e da aceitação majoritárias. Até porque quando a maioria pensa de forma idêntica, na verdade, não há ninguém pensando. O mais interessante será a discordância, o questionamento, a indagação e jamais a conclusão – muito menos a opinião unânime, porque, como o próprio Nelson nos disse, “na hora de odiar, ou de matar, ou de morrer, ou simplesmente de pensar, os homens se aglomeram. As unanimidades decidem por nós, sonham por nós, berram por nós.”

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